As operações de resgate dos irmãos Ágata Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, na zona rural de Bacabal, no Maranhão, alcançam o nono dia nesta segunda-feira. As crianças desapareceram após saírem para brincar no povoado de São Sebastião dos Pretos, acompanhadas do primo Wanderson Kauã, de 8 anos, encontrado na quarta-feira (7).
A complexidade do terreno, situado em uma área quilombola de mata densa, tem exigido o emprego de tecnologias avançadas, incluindo drones com sensores térmicos, aeronaves do Centro Tático Aéreo e cães farejadores, além do reforço de equipes do Exército e voluntários locais que tentam localizar os menores.
Quem atua nas incursões pela floresta relata um ambiente extremamente hostil, onde a vegetação bloqueia a luz solar e dificulta a orientação espacial. Emanoel Diniz, que participou das varreduras, descreve a severidade das condições enfrentadas pelos grupos de busca. “Lá é uma área muito ampla, com uma mata muito fechada e inóspita. Ontem (domingo) eu saí em um grupo de oito homens, quatro deles se perderam lá dentro. Lá não dá nem para ver o céu por conta das copas das árvores. A água que levamos acabou nas primeiras duas horas de buscas. Foi muito cansativo, é uma coisa de outro mundo”, relatou o voluntário sobre a experiência no local.
Obstáculos naturais e riscos
A geografia do local impõe barreiras físicas significativas, como buracos, áreas alagadas e espinhos, o que limita a eficácia da observação aérea e obriga as equipes a realizarem varreduras terrestres perigosas. O voluntário Carlos Eduardo Soares destaca os perigos do solo irregular. “É uma área muito fechada, com muitos lagos, buracos e espinhos. Está difícil para o Comando Tático Aéreo observar por cima, com drones. A única solução é ir por dentro da mata, mas, se a pessoa não prestar atenção, pode cair. É muito buraco”, afirmou. A região também apresenta vegetação alta e possíveis armadilhas de caça, aumentando o risco para os envolvidos.
A sensação de desorientação é constante entre os que adentram a mata, mesmo para adultos familiarizados com o ambiente rural, o que gera preocupação quanto ao estado das crianças. Carlos Eduardo compartilhou a dificuldade de navegação enfrentada pelo seu grupo. “E ontem, por incrível que pareça, conseguimos nos perder. E nós já somos adultos, imagina as crianças. É muito estranho, porque o tempo todo você acha que passou pelo mesmo lugar. Você anda, anda e sempre parece que está no mesmo lugar“, disse. A Secretaria de Segurança Pública confirmou as características de difícil acesso, citando trechos de mata virgem e cursos d’água.
Mobilização e bases operacionais
Para coordenar os esforços, o governo estadual e a prefeitura estabeleceram pontos de apoio estratégico para as forças de segurança e a comunidade. A SSP detalhou a logística em nota oficial: “As bases de buscas estão montadas em dois pontos estratégicos: no povoado São Sebastião dos Pretos, local de residência das crianças, e no povoado Santa Rosa, nas proximidades da mata onde Wanderson Kauã foi localizado. As duas localidades ficam distantes cerca de 20 km da sede do município de Bacabal. Em ambos os locais, a Prefeitura de Bacabal estruturou uma ampla logística para dar suporte às forças de segurança e aos voluntários, com tendas, alimentação, água, ambulância e outros”. A solidariedade regional também é evidente, conforme observou Diniz: “Está sendo uma mobilização muito grande, pessoas de cidades vizinhas estão vindo para cá. O pessoal de Bacabal está em peso ajudando. Normalmente saí um grupo de oito a dez pessoas com duas que conhecem a região para fazer as buscas”.
