Tenente lista 13 elogios a si mesmo em mensagens para PM Gisele: ‘Sou mais que um príncipe, sou…’

Documento de 82 páginas indica rendição, disparo à curta distância e limpeza de cena no caso Gisele Alves Santana.

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O tenente coronel da Polícia Militar de São Paulo Geraldo Leite Rosa Neto foi preso em São José dos Campos, no interior paulista, por ordem da Justiça Militar, e encaminhado ao Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital. Paralelamente, ele foi denunciado pelo Ministério Público ao Tribunal do Júri por crime contra mulher e fraude processual, tornando-se réu na Justiça comum, que também expediu mandado de prisão. O caso diz respeito ao falecimento da soldado Gisele Alves Santana, ocorrido há um mês no apartamento do casal, no centro de São Paulo. Um relatório de 82 páginas da Polícia Civil, assinado pelo delegado Lucas de Souza Lopes e mantido sob sigilo judicial, contesta a hipótese de que Gisele teria tirado a própria vida e atribui ao oficial a dinâmica que teria levado ao desfecho.

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A chegada de Geraldo Leite Rosa Neto ao presídio militar ocorreu no meio da tarde, após a detenção no início da manhã. No local, colegas de farda o cumprimentaram discretamente. Segundo a investigação, além da custódia na esfera militar, a denúncia do Ministério Público levou a uma segunda ordem de prisão na Justiça comum, na qual o oficial responde também por suposta fraude processual ligada à cena dos fatos.

Perícia aponta dinâmica no apartamento

O relatório técnico descreve que Gisele teria sido imobilizada por trás na sala do apartamento. Uma fotografia do pescoço da vítima, produzida pelo médico-legista, registrou marcas compatíveis com compressão manual. A análise balística e de trajetória concluiu que o disparo ocorreu a curtíssima distância, de trás para a frente e de forma ascendente. Representações gráficas anexadas ao inquérito indicam o padrão de projeção de sangue no vidro da janela e na parede da sala.

De acordo com os peritos, após o disparo, o corpo foi reposicionado no chão da sala, a arma foi encaixada na mão de Gisele e houve limpeza do ambiente, o que seria compatível com uma tentativa de simulação. A leitura das chamadas manchas por escorrimento indicou trajetória de sangramento típica de quando a vítima ainda está viva e em posição vertical, conclusão que diverge da posição deitada em que Gisele foi localizada pelos socorristas.

A equipe também avaliou os banheiros do apartamento. Embora o tenente coronel tenha afirmado que estava tomando banho durante o ocorrido e que Gisele teria usado outro banheiro, os ambientes foram encontrados secos quando a polícia chegou. Ainda assim, vestígios de sangue de Gisele foram detectados no piso do box, em duas torneiras e em um ponto mais baixo. Outras manchas foram identificadas na bermuda do oficial e em uma toalha colocada sobre uma cadeira na varanda.

Mensagens e cronologia do caso

A investigação delineou uma cronologia segundo a qual transcorreram 27 minutos entre o disparo e o primeiro pedido de socorro feito pelo oficial. A perícia em celulares apontou uma dinâmica de controle na relação. Segundo o relatório, o tenente coronel se descrevia como provedor e esperava obediência da parceira, chegando a afirmar que ela deveria ser “obediente e submissa, como toda mulher deve ser.” Em uma das conversas citadas pelos investigadores, ele escreveu: “Enquanto você estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito.” Em resposta, Gisele registrou: “Achei que você era um príncipe, cavalheiro, romântico, galanteador, perdeu toda a essência e me trata de qualquer jeito.” Na sequência, o oficial devolveu: “Sou mais que um príncipe, sou rei religioso, honesto, bonito, gostoso, provedor e soberano.”

Enquanto aguarda desdobramentos processuais, o tenente coronel permanece custodiado no Presídio Militar Romão Gomes, unidade destinada a policiais militares presos. Pela legislação, o Tribunal do Júri julga crimes dolosos contra a vida, e o oficial responderá por crime contra mulher e por suposta fraude processual no âmbito da Justiça comum, além dos procedimentos na Justiça Militar.