A popularização das chamadas canetas emagrecedoras, que utilizam substâncias como semaglutida e tirzepatida, trouxe para o cenário clínico brasileiro um novo alerta: a agonorexia. O termo, originário dos Estados Unidos, descreve um padrão de perda de apetite severa, semelhante à anorexia, mas provocado diretamente pelo efeito farmacológico dos medicamentos agonistas de GLP-1.
Embora ainda não seja classificado como um diagnóstico oficial nos manuais de psiquiatria, o quadro preocupa especialistas devido ao uso desses fármacos sem indicação profissional ou em contextos puramente estéticos.
As canetas funcionam mimetizando hormônios intestinais que atuam no sistema nervoso central para ampliar a saciedade. Contudo, quando a dosagem não é ajustada gradualmente ou o paciente utiliza versões manipuladas sem regulação, a inibição alimentar pode atingir níveis perigosos. O monitoramento é indispensável para evitar que a redução do apetite se transforme em uma ingestão calórica insuficientemente baixa para a manutenção das funções vitais do organismo.
Riscos clínicos e complicações do uso sem acompanhamento
A ausência de critérios diagnósticos formais não impede que médicos identifiquem sinais de alerta, como fraqueza extrema, náuseas persistentes e isolamento social. Além do impacto nutricional, a perda de peso acelerada e desordenada pode resultar em complicações físicas severas, como a formação de cálculos biliares. Em situações mais graves, esses cálculos podem migrar e desencadear uma pancreatite, condição que, em sua forma necrotizante, pode levar o paciente a falecer se não houver intervenção imediata.
Outro ponto de preocupação entre os profissionais de saúde é a preservação da estrutura corporal a longo prazo. A perda de massa magra é um efeito colateral frequente quando o emagrecimento não é acompanhado de exercícios de resistência e suporte nutricional adequado. O uso indiscriminado pode comprometer a saúde das futuras gerações, criando idosos precocemente frágeis devido à sarcopenia.
Importância da abordagem multidisciplinar e segurança farmacológica
Para mitigar os danos associados à agonorexia, a recomendação é que o tratamento seja sempre conduzido por uma equipe multidisciplinar, envolvendo endocrinologistas, nutricionistas e, se necessário, suporte psicológico. Além disso, os especialistas advertem contra a aquisição de medicamentos em canais informais ou clínicas que priorizam o lucro. A caneta, quando bem utilizada, não é perigosa. O problema está no uso indevido.
