Existe aquela pessoa que todo mundo procura quando precisa conversar. É ela quem responde mensagens de madrugada, oferece conselhos, resolve problemas, pergunta se os amigos estão bem e aparece quando alguém precisa de companhia.
Por causa desse comportamento, pode ser difícil imaginar que essa mesma pessoa esteja enfrentando alguma dificuldade.
Mas ajudar os outros não significa estar bem o tempo inteiro. Pessoas que assumem frequentemente o papel de cuidadoras também podem sentir tristeza, ansiedade, solidão, cansaço e sobrecarga. Algumas simplesmente não encontram espaço para falar sobre aquilo que estão vivendo.
No Setembro Amarelo, essa situação merece atenção. Nem sempre quem precisa de apoio é quem demonstra claramente estar mal. Às vezes, justamente a pessoa que parece mais forte é aquela que aprendeu a esconder as próprias dificuldades.
Quando cuidar dos outros vira uma forma de esconder o que sente
Algumas pessoas se acostumam a colocar as necessidades dos outros antes das próprias. Elas resolvem problemas, escutam desabafos e tentam manter todos bem, mas raramente perguntam a si mesmas como estão.
Também pode existir medo de decepcionar. Quem sempre foi visto como forte pode sentir que não tem o direito de demonstrar fragilidade. Admitir que está cansado ou que precisa de ajuda pode parecer contraditório com a imagem que construiu.
Outro comportamento possível é transformar o próprio sofrimento em preocupação com outra pessoa. Em vez de falar sobre seus sentimentos, a pessoa muda de assunto, oferece um conselho ou pergunta se alguém precisa de alguma coisa.
Por isso, vale observar mudanças que aparecem mesmo em pessoas aparentemente muito dispostas. Irritabilidade, isolamento, perda de interesse por atividades, alterações no sono, cansaço constante e dificuldade de concentração podem indicar que algo não está bem.
Não é possível identificar a causa apenas por esses sinais. O importante é perceber mudanças persistentes e não presumir que alguém está bem simplesmente porque continua ajudando os outros.
Quem cuida também precisa ser cuidado
Uma maneira simples de se aproximar é inverter a pergunta. Em vez de procurar essa pessoa apenas quando você precisa de alguma coisa, pergunte como ela está.
“E você, como está?” pode parecer uma pergunta pequena, mas pode abrir espaço para alguém que está acostumado a ouvir e quase nunca a ser ouvido.
Se ela quiser conversar, procure escutar sem julgamento. Evite respostas automáticas como “você é forte”, “você sempre dá conta” ou “não fica assim”. Mesmo elogios podem acabar reforçando a ideia de que aquela pessoa precisa continuar suportando tudo sozinha.
Também não é necessário tentar resolver o problema imediatamente. Demonstrar presença, oferecer companhia e incentivar a procura por ajuda profissional podem ser atitudes mais importantes do que encontrar uma solução rápida.
Se alguém falar sobre morte, desaparecer, não querer mais viver ou não enxergar uma saída, leve a fala a sério. Procure ajuda imediatamente e, diante de risco iminente, acione um serviço de emergência.
O Setembro Amarelo também serve para lembrar que ninguém precisa ocupar o papel de forte o tempo inteiro. A pessoa que aconselha pode precisar de conselho. Quem oferece colo também pode precisar ser acolhido. E quem está sempre presente para os outros também merece que alguém pare e pergunte se está tudo bem.
Às vezes, cuidar começa simplesmente por lembrar daquela pessoa que sempre cuida de todo mundo.
Se você ou alguém que conhece estiver passando por um momento de sofrimento emocional, procure ajuda. O CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. O atendimento também está disponível pelo site oficial do CVV.
