Você entra nas redes sociais para passar alguns minutos e, quando percebe, já viu dezenas de pessoas viajando, comprando coisas novas, exibindo o corpo, comemorando conquistas ou mostrando uma rotina aparentemente perfeita.
Nada disso significa que essas pessoas estejam realmente vivendo tudo aquilo daquela maneira. Ainda assim, a exposição repetida a esse tipo de conteúdo pode influenciar a forma como você avalia a própria vida.
O problema não está necessariamente em usar redes sociais. Elas também servem para manter amizades, encontrar informação, divulgar trabalho, descobrir interesses e criar comunidades. A questão é o que acontece quando a comparação passa a ser automática.
Uma pessoa pode começar a olhar para a própria rotina e enxergar apenas aquilo que falta.
A comparação acontece mesmo quando você sabe que existe edição
Todo mundo sabe que fotos podem ser editadas e que ninguém publica todos os momentos ruins. Mesmo assim, isso não impede completamente o efeito da comparação.
O cérebro não recebe apenas uma informação racional de que aquela imagem foi selecionada. Ele também é exposto repetidamente a determinados padrões de beleza, consumo, relacionamento, produtividade e sucesso.
Depois de dezenas ou centenas de imagens, aquilo pode começar a parecer normal.
Uma mulher pode passar a considerar seu corpo inadequado porque vê constantemente determinado padrão físico. Um jovem pode acreditar que está fracassando porque acompanha pessoas da mesma idade que parecem ganhar dinheiro, viajar e construir uma carreira rapidamente.
Até coisas aparentemente banais entram nessa comparação: quem tem a casa mais bonita, quem sai mais, quem tem mais amigos, quem recebe mais atenção ou quem parece estar sempre feliz.
O resultado pode ser uma sensação persistente de insuficiência.
E existe uma característica particularmente enganosa das redes: elas misturam a vida real de uma pessoa com os melhores momentos de dezenas ou centenas de outras.
Você compara seu dia comum com o melhor momento editado de outra pessoa.
Quando a autoestima começa a depender da aprovação
Outro problema aparece quando curtidas, comentários e visualizações começam a funcionar como uma espécie de medidor de valor pessoal.
Uma publicação recebe pouca atenção e a pessoa imediatamente pensa que fez algo errado. Uma foto tem menos curtidas do que a anterior e surge a sensação de rejeição. Um comentário negativo permanece na cabeça durante horas, enquanto dezenas de comentários positivos são esquecidos.
Isso pode criar uma relação difícil com a própria imagem.
A pessoa começa a escolher o que publica pensando mais na reação dos outros do que naquilo que realmente gostaria de compartilhar. Apaga fotos porque não tiveram o desempenho esperado. Evita aparecer sem maquiagem ou fora de determinados ângulos. Passa a buscar aprovação constantemente.
Com o tempo, a validação externa pode ocupar um espaço que deveria pertencer à própria percepção de valor.
Também vale observar o efeito que o uso das redes provoca depois que o celular é guardado. Se você termina uma sessão se sentindo inferior, frustrado, ansioso ou insatisfeito com a própria vida, esse efeito merece ser levado em consideração.
Uma estratégia simples é observar quais perfis provocam esse sentimento e reorganizar o que aparece no feed. Silenciar ou deixar de acompanhar determinados conteúdos não significa invejar alguém. Significa reconhecer o efeito que aquela exposição está produzindo em você.
Também pode ajudar estabelecer períodos do dia sem redes sociais, principalmente quando o uso começa a ocupar momentos de descanso, estudo, trabalho ou convivência.
O objetivo não precisa ser abandonar a internet. É recuperar algum controle sobre aquilo que você consome.
E existe outro ponto importante: autoestima não é apenas gostar da própria aparência. Ela também envolve a maneira como uma pessoa percebe suas capacidades, relações, limites e valor.
Quando a comparação virtual começa a interferir intensamente nisso, conversar com alguém de confiança ou buscar apoio profissional pode ser uma decisão adequada.
No Setembro Amarelo, essa discussão também importa porque sofrimento emocional não começa necessariamente com uma grande crise. Às vezes, ele vai sendo construído aos poucos, em pequenas comparações repetidas todos os dias.
A pergunta talvez não seja “quantas horas você passa nas redes?”, mas também “como você se sente depois de passar esse tempo nelas?”.
Essa resposta pode dizer muito mais do que o tempo registrado na tela.
Mensagem do CVV: se você ou alguém que conhece estiver passando por sofrimento emocional e precisar conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o Brasil. O atendimento é sigiloso e anônimo. Em situações de emergência ou risco imediato, procure também um serviço de emergência ou atendimento de saúde.
