Ressaca: dia de glória, dia de luta, dia de glória

No rescaldo do Dia Internacional da Mulher, é preciso puxar a orelha dos homens de novo.

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O Dia Internacional da Mulher veio, de novo, repleto de comemorações bizarras e equivocadas. A mais nojenta que ouvi foi a do criminoso, com diploma de deputado, N. “Chupetinha” Ferreira. Mais uma vez, um homem (ou algo parecido) sequestrou parte das atenções para opor-se à mulher. A celebração do espírito feminino e de seus inúmeros sacrifícios é, em grande parte, um dia de conscientização para o tanto que ainda deve ser feito. No dia da celebração, mais luta. Quando isso acaba?

Homens, sobretudo os brancos, não contemplamos a dimensão das conquistas femininas ao longo dos séculos. O exemplo que mais rápido me vem à mente é a invenção da agricultura. Enquanto os coletores-caçadores deixavam os agrupamentos, a mulher cuidava dos assentamentos, das crianças e observava – e experimentava – maneiras de cultivar plantas.

Milênios mais tarde, a humanidade, (razoavelmente) alimentada, ia ao espaço pela primeira vez. Pra quem assistiu à série de Tom Hanks para a HBO, Da Terra à Lua, esse empreendimento científico parece ter sido levado a cabo apenas por homens. Quando lembra-se das mulheres, Hanks fala das esposas aflitas dos cosmonautas. Felizmente, a história incrível das mulheres que garantiram os cálculos que possibilitaram a empreitada está agora sendo revelada.

Nas guerras que marcaram o século XX, lembramos, com muita frequência, dos soldados. Mas o esforço de guerra também colocava mulheres em situações extremas nas fábricas, para prover pelotões com suprimentos e alimentar nações inteiras, desoladas pelo flagelo. No Vietnã, foram as mulheres que reergueram o país depois da guerra. No Curdistão e na Síria, já no século XXI, um exército de mulheres formou-se para defender suas crianças e seu respectivo país.

Em tempos de paz, a mulher é imensamente mais presente do que nos damos conta: além de suas pesquisas continuarem a revolucionar diversas áreas, como a agricultura, a pecuária, a física, os esportes, as artes, a aviação, a Enfermagem, a Engenharia, o Direito e qualquer outra área do conhecimento humano, nosso dia a dia é repleto de invenções de mulheres, como o circuito fechado de TV, a geladeira, a transmissão de dados sem-fios, os painéis solares, seringas. Nossos computadores, automóveis, telefones, eletrodomésticos, em tudo está a mulher. Nunca houve história sem mulheres, como às vezes querem fazer parecer.

Acaba que são estes mesmos dias, repletos de luta, de injustiça, de desequilíbrios, violência, os dias de glória. Poder lutar por dias melhores, pena-me dizer, é uma conquista em si. O que homens não aceitamos – como não aceitam quaisquer opressores a perder privilégios – é que essa desigualdade, em muitíssimo menor grau (ou, ao menos, sem condições de comparação), também nos pune. Somos homens incompletos, delimitados, doentes. Condenamo-nos a um constante vir-a-ser, porque excluímos metade da população mundial, simplesmente, porque são mulheres (e, confirmam as estatísticas, ainda mais excluídas por serem negras e pobres).

A história sempre foi feminina e o futuro tem urgência de mais participação feminina. Sobre a glória de tantas conquistas é que havemos de lutar ainda mais.

*** Esta é uma coluna de opinião e não reflete o posicionamento da i7 Network.