A expedição ao Pico do Paraná, realizada entre os dias 31 de dezembro de 2025 e 1º de janeiro de 2026, resultou em desdobramentos jurídicos e relatos conflitantes entre os envolvidos. Thayane Smith, que acompanhava Roberto Farias Thomaz na subida para observar o nascer do sol, apresentou sua versão sobre os eventos que culminaram no desaparecimento do parceiro por cinco dias. Enquanto a defesa da trilheira sustenta que ela agiu para preservar a própria segurança diante da escassez de recursos, o Ministério Público do Paraná (MP-PR) concluiu, após análise do inquérito, que houve omissão de socorro. A promotoria entendeu que a decisão de seguir sozinha configurou o crime previsto no artigo 135 do Código Penal, contrariando o arquivamento inicial sugerido pela Polícia Civil.
O relato de Thayane expõe uma série de frustrações pessoais que teriam deteriorado a convivência durante o trajeto. A jovem admitiu que havia uma expectativa romântica para o passeio, afirmando: “Não foi à toa que eu levei um pacote de oito camisinhas”. No entanto, a dinâmica entre a dupla não fluiu conforme o esperado devido ao comportamento de Roberto, que ela descreveu como excessivamente falante e sem liderança. O repertório musical escolhido pelo rapaz também foi ponto de discórdia, gerando desconforto na trilheira. “Ele ficava cantando ‘Hakuna Matata’”, relatou Thayane, classificando a experiência geral de forma negativa ao declarar que “Foi totalmente broxante desde o início da trilha”.
Divergências sobre a descida
Além da incompatibilidade pessoal, Thayane descreveu situações de invasão de espaço, como tentativas de cócegas quando ela desejava descansar, chegando a dizer: “Eu falava: cala a boca, eu quero dormir”. Apesar dos conflitos, ela foi enfática ao negar qualquer episódio de violência íntima, assegurando que “Ele não tentou me estuprar, não tentou nada forçado”. O ponto crítico ocorreu no retorno, quando ambos se separaram em um trecho de difícil navegação. Thayane alega ter esperado no ponto A1 e deixado sinais visuais, mas, ao notar a falta de água e comida, optou por descer sozinha. Em sua defesa contra as acusações de abandono, ela justificou a atitude como instinto de sobrevivência: “Eu vou sair na frente porque eu vou me salvar”.
A interpretação das autoridades, contudo, diverge da narrativa de autoproteção apresentada pela jovem. O Ministério Público avaliou que Thayane tinha ciência da condição física debilitada de Roberto e, mesmo assim, optou por não acionar o resgate adequado no momento oportuno. A denúncia formalizada pelo órgão busca a responsabilização penal da trilheira, propondo medidas que incluem o pagamento de indenizações à vítima e o ressarcimento financeiro ao Corpo de Bombeiros pelos custos da operação de busca. O caso foi encaminhado ao Juizado Especial Criminal, onde serão discutidas as sanções, que podem envolver também a prestação de serviços comunitários.
Consequências jurídicas e resgate
Roberto Farias Thomaz foi localizado com vida após cinco dias perdido na mata, tendo conseguido chegar a uma fazenda após seguir o curso de um rio. O episódio ganhou ampla repercussão nas plataformas digitais, levantando debates sobre segurança e responsabilidade em atividades de montanhismo. A conclusão do MP reforça o entendimento de que a conduta de Thayane configurou abandono de pessoa em situação de vulnerabilidade, transformando o que seria um passeio de lazer em um processo judicial complexo. A defesa da trilheira mantém a posição de que ela não abandonou o colega intencionalmente, mas as evidências reunidas pelos promotores sustentam a acusação de omissão diante do risco enfrentado pelo rapaz.
