O julgamento de um dos casos criminais de maior repercussão recente no Havaí, nos Estados Unidos, teve início nesta semana, trazendo à tona detalhes de um episódio de violência contra mulher. O anestesiologista Gerhardt Konig, de 47 anos, sentou-se no banco dos réus para responder à acusação de tentativa de homicídio cometida contra a sua atual ex-esposa, a engenheira nuclear Arielle, de 37 anos.
O crime ocorreu em março do ano passado, durante um passeio no mirante Pali Puka, localizado na ilha de Oahu. Segundo as investigações, Gerhardt é acusado de agredir violentamente Arielle com uma pedra e de tentar empurrá-la deliberadamente do alto de um penhasco. Durante a sessão realizada na última quinta-feira (2), o médico teve a oportunidade de dar o seu depoimento oficial perante o júri, ocasião em que tentou inverter a narrativa dos fatos para se colocar no papel de vítima da situação.
Médico alega legítima defesa
Em sua fala, Gerhardt assumiu ter de fato agredido a então esposa, mas sustentou a tese de legítima defesa para justificar os seus atos. Ele contextualizou que o relacionamento do casal atravessava uma profunda crise após ele descobrir que Arielle supostamente ficava “grudada no celular” e que trocava mensagens com teor de flerte com um colega de trabalho, admitindo, inclusive, que monitorava as conversas do WhatsApp da engenheira pelo computador enquanto ela dormia.
No fatídico dia da trilha, a briga teria se iniciado após ele tomar conhecimento de uma viagem de negócios planejada pela companheira. Sustentando a sua versão dos acontecimentos, o réu declarou que Arielle o teria atacado primeiro à beira do precipício. Detalhando a suposta dinâmica da luta, o médico relatou que a mulher começou a gritar, agarrou os seus punhos com força, jogou-se no chão e acabou o puxando junto com ela para a terra.
Ele explicou que precisou se debater até conseguir soltar as duas mãos e, em seguida, tentou fazer com que a ex-esposa soltasse os seus testículos, momento exato em que, segundo ele, ela o teria acertado com uma pedra. Após esse suposto golpe, o anestesiologista confessou que conseguiu tomar a rocha das mãos dela e a atingiu na cabeça por duas vezes.
Esposa apresenta outra versão
A postura do réu, no entanto, foi duramente contestada durante o interrogatório pelo promotor Joel Garner, que questionou o histórico de comportamento agressivo do médico, fazendo-o admitir que já havia ofendido a esposa com xingamentos misóginos e pesados em ocasiões anteriores.
Apresentando um cenário completamente oposto, Arielle também testemunhou no tribunal e entregou uma versão bem diferente dos fatos. De acordo com o relato da engenheira, o marido teve um acesso de fúria puramente porque ela se recusou a tirar uma fotografia muito próxima à beira do precipício, justificando que estava se sentindo extremamente desconfortável e insegura com o local.
Ela detalhou que, instantes antes de ser golpeada, o médico teria perdido a razão e gritado com muito ódio para que ela fosse para aquele lugar indesejado, sentenciando verbalmente que tudo aquilo havia acabado para ela de uma vez por todas. A vítima afirmou que o agressor também tentou esfaqueá-la utilizando seringas que continham substâncias misteriosas.
Argumentando sobre esse ponto específico no processo, Arielle ressaltou o perigo extremo da situação ao pontuar que, embora não soubesse ao certo qual era o conteúdo exato das seringas, tinha plena consciência de que Gerhardt, por atuar como anestesista profissional, possuía acesso facilitado a uma grande variedade de medicamentos potencialmente letais como parte de sua rotina de trabalho.

Corroborando o relato da vítima, a promotoria sustenta a acusação de que o médico desferiu vários socos no rosto da engenheira e utilizou a pedra para feri-la gravemente antes de fugir do local. Sobrevivendo ao ataque após ser socorrida por outras pessoas que faziam a trilha, Arielle hoje vive amparada por uma medida protetiva expedida contra o ex-marido.
Depoimento de filho sustenta narrativa da esposa
Fechando a sequência de evidências apresentadas contra o réu, outro depoimento que marcou o andamento do julgamento foi o de Emile Konig, filho do médico. O jovem compareceu ao tribunal e contou sob juramento que o seu pai fez uma ligação de vídeo para ele por meio de um aplicativo logo após ter cometido o crime.
Durante a chamada, o anestesiologista avisou que não voltaria mais para casa e pediu encarecidamente que o rapaz assumisse a responsabilidade de cuidar de seus irmãos menores. Consolidando a tese da acusação de que o ataque foi consciente, Emile revelou que o próprio pai confessou durante a ligação telefônica que a madrasta o estaria traindo e admitiu abertamente ao filho que havia de fato tentado matá-la naquele dia na montanha.
