Não há discussão: trata-se de uma escolha. Para muitos, talvez, pode ser algo como “o fogo e a frigideira” ou “a pedra e um lugar duro”. Ainda assim, nos tempos em que vivemos, há como construir alternativas, algumas delas tão radicais como a de Paul Preciado, que corajosamente desafiou analistas a enxergá-lo plenamente. Para muitos de nós, no entanto, há caminhos trilhados, exemplos a serem seguidos que, pelo menos, não incluem toxicidade. Ao menos, não extrema.
É razoavelmente típico que homens precisem fazer uma escolha entre conservadorismo machista, de piadas ofensivas e objetificação da mulher, e o ostracismo que pode advir da heteroafetividade, de enxergar e abraçar a mulher como uma pessoa plena, ou da homo e da bissexualidade como formas válidas de ser.
Lembro da história comovente de um velho amigo que, ao ouvir no rádio as velhas piadas preconceituosas dos apresentadores, ria e chorava a um só tempo, depois de assumir-se gay. “Esse sou eu agora!”, ele pensava. A vida pregressa provocava a confusão de sentimentos.
Sexualidade, infelizmente, segue sendo uma fronteira. É preciso cruzar uma mulher na rua e checar a bunda dela; qualquer coisa diferente disso é “suspeito” e sujeito a escrutínio. A beleza física segue determinando o valor único que homens atribuem à mulher. “Essas companhias” servem para referirmo-nos aos amigos LGBTQIAPN+, como se houvesse um mal contagioso a ser transmitido. Até há, mas não são gays e transgêneros a fazê-lo.
O machismo a que sucumbe uma parcela significativa dos jovens tem essa característica de mal contagioso, no qual um acometido basta para que sua influência alcance outros. Chauvinistas enrustidos saem do armário com gosto quando encontram reforço psicológico, e a doença se espalha como se estivesse dormente há anos, transformando-se em políticas vazias impulsionadas por medo moral de espantalhos como o clássico “mamadeira de piroca”. Também abraçam a epidemia as “bichas enrustidas”, termo a que peço vênias, tentando proteger-se da toxicidade da cultura heteronormativa a que nos habituamos na história recente do ocidente. Paul Preciado provoca que homem e mulher também são construções culturais, reforçadas no controverso séc. XIX, prolífico de pseudociências.
Um velho amigo também propôs, uma vez, que, a menos que seja um casal homossexual, nossas mentes são incapazes de propor questionamentos à natureza das relações e dos relacionamentos. Nunca, em qualquer altura das nossas vidas, nos preocupamos com as práticas sexuais dos vizinhos, por mais inortodoxas que realmente sejam, mas basta uma bitoca no portão para que nossas mentes machistas heteronormativas confabulem as mais atrozes bizarrices entre casais do mesmo sexo. A tristeza da proposta é verificar que abusos sexuais, que real e estatisticamente há entre casais heterossexuais são ainda mais aceitáveis do que o amor real entre homossexuais.
Entre nós, escondem-se os cooptados, disseminando propaganda antimulher, antigay, antidiversidade, ainda que isso os custe a própria identidade e, a deusa queira que não, a própria existência.
***Esta é uma coluna de opinião e não reflete o posicionamento da i7 Network***

