A Copa do Mundo sempre foi vendida como uma festa sem fronteiras. Seleções de todos os continentes, torcedores que cruzam o planeta, uma celebração que ignora passaportes em nome do futebol.
Em 2026, porém, essa promessa de inclusão encontrou um obstáculo: a política de imigração e vistos do país que recebe a maior parte dos jogos.
Dos 104 jogos do torneio, 78 devem ser disputados nos Estados Unidos, incluindo todas as fases a partir das quartas de final. México e Canadá recebem apenas 13 partidas cada, justamente as etapas iniciais.
Ou seja, a parte mais decisiva da Copa acontece no país onde a entrada é a mais incerta.
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A inclusão que esbarra na fronteira
A ideia de uma Copa inclusiva pressupõe que qualquer pessoa, vindo de qualquer país classificado, possa acompanhar sua seleção de perto. Mas isso depende de uma variável que a Fifa não controla: a soberania de cada país-sede sobre quem entra em seu território.
Segundo uma análise do BBC World Service, feita com dados do Departamento de Estado americano, torcedores de mais de um quarto dos países classificados enfrentam proibições de viagem, restrições mais rígidas ou altas taxas de rejeição de visto para os Estados Unidos.
Países como Irã, Iraque e Haiti viram torcedores e jornalistas barrados, enquanto delegações passaram por um escrutínio incomum nos aeroportos.
Houve até o caso do árbitro somali Omar Artan, escalado para o Mundial e barrado em Miami mesmo com passaporte e visto válidos, sob alegação de verificação de antecedentes, conforme análise publicada pelo The Conversation.
A torcedora brasileira que ganhou a viagem e não pôde ir
Nem sempre a barreira atinge quem está ligado ao futebol profissional. Às vezes, ela cai sobre o torcedor comum, aquele que sonhou em ver a seleção de perto. Foi o que aconteceu com a enfermeira Raphaela Coiado, 24 anos, cuja história foi contada pela BBC.
Raphaela e o marido haviam conquistado, em uma promoção de uma grande marca, um pacote completo para acompanhar Brasil x Haiti na Filadélfia, com passagens, hospedagem e ingresso de camarote.
Ao lado de outros quatro parentes, ela foi ao consulado no Rio de Janeiro e saiu de lá com o visto negado. Todos os seis receberam a mesma recusa.
Segundo a BBC, ela não chorou no consulado. As lágrimas vieram em casa, quando as camisetas da seleção que faziam parte do prêmio foram entregues. “Realmente está acontecendo. E a gente não vai”, resumiu, lamentando perder a chance de ver de perto uma edição que marca a despedida de grandes craques.
A rotina sufocante da seleção do Irã
Entre as seleções afetadas, a do Irã é a que melhor ilustra o tamanho do problema. O país está na lista de restrições de viagem dos Estados Unidos, o que, somado às tensões diplomáticas entre os dois governos, transformou a participação iraniana em um caso à parte dentro do torneio.
Para contornar as barreiras, a delegação optou por instalar sua base de operações na cidade de Tijuana, no México, tendo que cruzar a fronteira para disputar as partidas.
A logística de entrar e sair do país a cada jogo encareceu e complicou a preparação de uma forma que nenhuma outra seleção precisou enfrentar.
Mesmo com a isenção concedida a atletas e comissão técnica, parte do entorno da delegação, incluindo dirigentes e profissionais de apoio, enfrentou recusas de visto.
A federação iraniana recorreu publicamente à Fifa em busca de ajuda, e a tensão chegou a ameaçar a presença do país já no sorteio do Mundial, meses antes da bola rolar.
Quando o futebol vira “isca”
A dimensão mais grave, porém, não está nas seleções estrangeiras, e sim em quem já vive nos Estados Unidos.
Um relatório da organização Human Rights Soccer Alliance, repercutido pelo G1, apontou que jogos e eventos de futebol passaram a ser usados como ponto de ação do ICE, o serviço de imigração americano, para localizar e deter imigrantes, sobretudo em comunidades latino-americanas, para quem o esporte funciona como espaço de pertencimento.
Segundo o documento, ao menos 17 pessoas ligadas ao futebol, entre jogadores, treinadores e familiares, foram detidas desde o início de 2025, parte delas deportada.
Os casos citados contam com detenções em campos de treinamento, a prisão de um imigrante na entrada de um estádio enquanto assistia a um jogo com os filhos e o caso do jovem jogador Emerson Colindres.
A entidade alerta que nenhuma orientação oficial impede que agentes atuem dentro ou nos arredores dos estádios durante a Copa.
Uma promessa em teste
A Copa de 2026 não inventou o atrito entre futebol e política migratória, mas o expôs de forma rara. Quando o país-sede impõe barreiras a quem deveria ser bem-vindo, do torcedor que ganhou a viagem ao árbitro com visto válido, a promessa de inclusão deixa de ser automática.
O torneio segue sendo a maior celebração do futebol mundial. Ainda assim, fica a lição: a inclusão prometida pela Copa só é real quando o portão de entrada do país-sede também está aberto. Enquanto isso não acontecer, parte do mundo vai continuar torcendo de longe, observando uma festa da qual nem todos conseguem participar de perto.
Nota: questões de imigração e vistos envolvem regras que mudam com frequência. Antes de viajar, consulte os canais oficiais do país-sede e, se necessário, um profissional especializado em direito migratório.
