Você abre o Instagram e alguém está viajando. Depois, aparece um casal comemorando uma data especial. Mais alguns segundos e surge um amigo mostrando um emprego novo, uma casa reformada, um corpo diferente ou uma conquista que parece ter acontecido sem esforço.
Enquanto isso, você está no sofá, cansado, preocupado com dinheiro ou simplesmente vivendo mais uma terça-feira comum.
É nesse contraste que a comparação começa a pesar.
O problema é que você não está comparando duas vidas reais. Está comparando a sua experiência completa com uma coleção dos momentos que outras pessoas decidiram mostrar.
Ainda assim, a sensação de estar ficando para trás pode ser bastante real.
A vida que aparece na tela não é a vida inteira
Ninguém publica uma linha do tempo completa da própria existência.
Uma pessoa pode passar meses enfrentando problemas e ainda assim publicar uma foto sorrindo em uma viagem. Pode estar insegura sobre o relacionamento e postar uma comemoração. Pode estar endividada e mostrar uma compra. Pode ter passado o dia inteiro mal e publicar uma foto em que parece extremamente feliz.
Isso não significa necessariamente que esteja fingindo. Uma pessoa pode realmente ter vivido um momento feliz enquanto enfrenta outras dificuldades.
A questão é que quem observa de fora não recebe o contexto completo.
Mesmo sabendo disso racionalmente, o cérebro tende a processar as imagens como referências. Depois de passar por dezenas de publicações mostrando conquistas, viagens, corpos considerados ideais e relacionamentos felizes, aquilo pode começar a parecer uma representação normal da vida.
E sua própria rotina passa a parecer pequena.
O café simples vira motivo de comparação com o restaurante sofisticado. O salário vira comparação com o empreendedor que exibe faturamento. O relacionamento comum vira comparação com o casal que publica declarações todos os dias.
A comparação não precisa ser consciente para produzir efeito.
Por que parece que todo mundo está avançando?
Existe ainda uma armadilha importante: as redes sociais oferecem uma quantidade enorme de exemplos de sucesso ao mesmo tempo.
Na vida real, você conhece algumas pessoas. Na internet, pode acompanhar centenas.
Se cinco pessoas próximas compram uma casa em um determinado período, você provavelmente não conclui que todo mundo da sua idade está comprando imóveis.
Na internet, porém, você pode encontrar dezenas de pessoas fazendo exatamente isso no mesmo dia.
A impressão de que “todo mundo está melhor do que eu” pode surgir justamente dessa exposição contínua.
Outro fator é que as pessoas costumam publicar aquilo que consideram interessante. Uma segunda-feira absolutamente normal raramente vira postagem. A promoção no trabalho, sim. A viagem, sim. O pedido de casamento, sim. O aniversário, sim.
Assim, momentos extraordinários começam a ocupar quase todo o espaço da nossa percepção sobre a vida dos outros.
E quanto mais tempo alguém passa nesse ambiente, mais oportunidades existem para comparar.
Se você percebe que sai das redes frequentemente se sentindo inferior, frustrado, ansioso ou insatisfeito com a própria vida, talvez seja hora de observar o que está consumindo.
Silenciar perfis que provocam comparações constantes pode ajudar. Reduzir o tempo de uso também. Mais importante ainda é perceber que seguir alguém não significa precisar usar aquela pessoa como régua para avaliar a própria vida.
A pergunta “por que eu não estou vivendo isso?” pode ser substituída por uma mais realista: “eu realmente quero isso ou estou apenas achando que deveria querer porque vejo isso o tempo todo?”.
Essa diferença importa.
Também é importante prestar atenção quando a comparação começa a afetar de maneira persistente a autoestima, os relacionamentos, o sono ou a vontade de participar da própria rotina. Nesses casos, conversar com alguém de confiança ou buscar apoio profissional pode ser importante.
No Setembro Amarelo, falar sobre comparação e redes sociais também é falar sobre uma forma de sofrimento que muitas vezes parece banal. Uma publicação isolada dificilmente explica como alguém está se sentindo. Mas centenas de comparações acumuladas podem influenciar a maneira como uma pessoa enxerga a própria vida.
A internet mostra muita coisa.
Só não mostra tudo.
E, principalmente, não mostra a vida inteira de ninguém.
Se você ou alguém que conhece estiver passando por sofrimento emocional e precisar conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o Brasil. O atendimento é sigiloso e anônimo. Em situações de emergência ou risco imediato, procure também um serviço de emergência ou atendimento de saúde.
