Com a eleição escapando pelas mãos, Lula tem nas mãos uma cartada capaz de mudar o rumo da campanha. O tema foi discutido por meses dentro do governo sem chegar a consenso, e agora voltou à mesa como a saída para um presidente que aparece atrás no segundo turno. Lula ainda não disse se vai usar. Mas os números mostram que ele não tem muito mais o que tentar.
Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (21), encomendada pela Globo e pelo jornal O Globo, mostra Flávio Bolsonaro (PL) com 42% contra 41% de Lula na simulação de segundo turno. É empate técnico, mas o petista aparece numericamente atrás pela segunda semana seguida. No primeiro turno, Lula lidera com 37%, mas Flávio subiu de 31% para 33% em uma semana, enquanto os indecisos caíram de 10% para 8%. O eleitor está decidindo, e não está decidindo por Lula.
A rejeição do presidente está em 55%, praticamente igual à de Flávio (56%). E 79% dos eleitores que já escolheram um candidato dizem que a decisão é definitiva. Sobra pouco espaço para convencer alguém, e o governo sabe disso.
A campanha que olhava para trás
Até duas semanas atrás, toda a estratégia de Lula era comparar o seu governo ao de Jair Bolsonaro. Os números mostram que não funcionou: a comparação com o passado não moveu a rejeição, não segurou a subida de Flávio e não trouxe os indecisos. O Planalto precisa de uma promessa nova, e é aí que entra a cartada guardada.
A medida em estudo é uma medida provisória para restringir as bets e, possivelmente, acabar com elas no Brasil. O alvo é específico: as famílias endividadas por causa das apostas, em especial as mulheres chefes de família, um grupo em que Flávio Bolsonaro tem desempenho fraco, mas vinha crescendo. É ali que o governo tenta estancar a sangria e associar o presidente a um alívio para quem sofre com vício e dívida em casa.
A escolha do instrumento não é acidental. Por ser medida provisória, a restrição passaria a valer no dia em que fosse publicada, sem precisar de votação prévia. O Congresso só decide depois se mantém ou derruba o texto. Na prática, Lula colheria o efeito eleitoral na hora e transferiria o desgaste para quem se opusesse.
A armadilha para a oposição
O cálculo é simples. Se a MP for mantida, Lula vira o presidente que acabou com o jogo no Brasil. Se for derrubada, a culpa cai no Congresso, e o governo vai apontar o dedo para o PL e os aliados de Flávio Bolsonaro como os responsáveis por proteger as bets. Quem votar contra a medida vira, no discurso petista, defensor do jogo.
O objetivo final é evitar que a avaliação do governo piore no fim da campanha e garantir a ida ao segundo turno, onde Lula teria mais tempo para tentar recuperar aprovação. Com a Quaest mostrando 42% a 41% para o adversário justamente nesse cenário, a proibição das apostas deixa de ser questão de convicção e vira questão de sobrevivência.
A manobra tem riscos. A medida enfrentaria contestação judicial, resistência no Congresso e pressão pesada do setor de apostas, que movimenta bilhões e tem lobby organizado em Brasília. Mas, para um governo que aparece atrás no segundo turno e não tem mais o que oferecer além de Bolsonaro, pode ser a única cartada que sobrou.
