Pais costumam conhecer os hábitos dos filhos melhor do que imaginam. Sabem quando ele está mais falante, quando prefere ficar quieto, quais amigos costuma procurar, o que gosta de fazer depois da escola e até como costuma reagir quando alguma coisa dá errado.
Por isso, uma mudança significativa pode ser percebida antes mesmo de o filho contar o que está acontecendo.
De repente, ele começa a ficar mais irritado. Passa muito mais tempo sozinho. Para de fazer uma atividade que adorava. Não quer mais encontrar os amigos. Dorme em horários diferentes ou parece cansado o tempo todo.
Uma mudança isolada não significa necessariamente que exista um problema. Crianças e adolescentes passam por fases, conflitos e transformações naturais. O que merece atenção é quando vários comportamentos mudam ao mesmo tempo ou quando a alteração permanece por semanas e começa a prejudicar a rotina.
No Setembro Amarelo, observar essas mudanças pode ser uma forma importante de cuidado. A campanha reforça a importância de falar sobre saúde emocional e de não ignorar sinais de sofrimento.
O comportamento pode mudar antes de a criança conseguir falar
Nem todo jovem consegue explicar o que está sentindo.
Uma criança pode não ter vocabulário para dizer que está angustiada. Um adolescente pode saber que está mal, mas não conseguir explicar o motivo. Em outros casos, existe medo de contar aos pais e provocar uma reação que ele não sabe como será.
Por isso, o sofrimento pode aparecer no comportamento.
Entre os sinais que merecem atenção estão isolamento repentino, irritabilidade fora do padrão habitual, perda de interesse por atividades, queda inexplicável no rendimento escolar, mudanças importantes no sono ou na alimentação e dificuldade crescente para se concentrar.
Também vale observar mudanças nas relações.
Um jovem que sempre teve amigos pode começar a evitar encontros. Uma criança que gostava de brincar pode passar a preferir ficar sozinha. Alguém que conversava bastante em casa pode responder apenas o necessário.
Mudanças na aparência e no autocuidado também podem ser relevantes quando representam uma alteração muito diferente do comportamento anterior.
Nenhum desses sinais permite concluir sozinho que existe depressão, ansiedade ou outro problema de saúde mental. Eles podem ter diversas causas. A função dos pais não é fazer um diagnóstico, mas perceber que alguma coisa mudou e tentar entender por quê.
Como os pais podem se aproximar
A maneira de abordar o assunto faz diferença.
Em vez de começar com uma cobrança, tente falar sobre aquilo que você observou.
“Tenho percebido que você está mais quieto ultimamente. Está acontecendo alguma coisa?”
É diferente de “Por que você está assim?” ou “Você não era desse jeito”.
A primeira abordagem demonstra curiosidade e preocupação. A segunda pode soar como acusação.
Também é importante escolher o momento. Nem toda conversa precisa acontecer diante de toda a família, durante uma discussão ou imediatamente depois de uma nota ruim.
Às vezes, uma conversa durante uma caminhada, no carro ou enquanto fazem alguma atividade juntos pode ser mais natural.
Se o filho começar a falar, resista à vontade de interromper para dar uma solução. Escutar não significa concordar com tudo. Significa permitir que ele explique o que está acontecendo antes de decidir o que fazer.
Também evite frases que diminuam a experiência, como “isso é bobagem”, “na sua idade eu tinha problemas de verdade” ou “você tem tudo para ser feliz”.
Para um adulto, determinado problema pode parecer pequeno. Para uma criança ou adolescente, ele pode ocupar uma parte enorme da vida.
Quando as mudanças são persistentes ou estão afetando a escola, os relacionamentos e a rotina, procurar ajuda profissional pode ser importante. Psicólogos, psiquiatras, pediatras e outros profissionais de saúde podem ajudar a entender o que está acontecendo.
Algumas falas exigem atenção imediata. Se o filho falar sobre morte, desaparecer, não querer mais viver ou não enxergar uma saída, não ignore e não trate como manipulação. Leve a sério, permaneça com ele e procure ajuda. Diante de risco iminente, acione um serviço de emergência.
Cuidar da saúde emocional dos filhos não significa vigiar cada comportamento ou impedir que eles tenham privacidade. Significa conhecer suficientemente a rotina deles para perceber quando uma mudança foge do habitual.
No Setembro Amarelo, esse cuidado ganha ainda mais espaço. Nem sempre uma criança ou adolescente vai chegar aos pais e dizer claramente “eu preciso de ajuda”.
Às vezes, o pedido aparece de outra maneira: em um quarto cada vez mais fechado, em uma atividade abandonada, em um silêncio que não existia antes ou em uma irritação que passou a fazer parte de todos os dias.
Prestar atenção não significa imaginar o pior.
Significa não deixar passar despercebido aquilo que merece uma conversa.
Se você ou alguém que conhece estiver passando por sofrimento emocional e precisar conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o Brasil. O atendimento é sigiloso e anônimo. Em situações de emergência ou risco imediato, procure também um serviço de emergência ou atendimento de saúde.
