“Está tudo bem.” Para muitos homens, essa resposta sai automaticamente. Mesmo quando não está tudo bem.
Eles continuam trabalhando, pagando contas, encontrando amigos, cuidando dos filhos e cumprindo compromissos. Por fora, a rotina segue normalmente. Por dentro, podem estar enfrentando problemas que quase ninguém conhece.
Isso não acontece porque homens sentem menos. A diferença muitas vezes está na forma como foram ensinados a lidar com aquilo que sentem.
Desde cedo, muitos meninos escutam que chorar é sinal de fraqueza, que precisam aguentar pressão sem reclamar e que problemas devem ser resolvidos sozinhos. Com o tempo, esconder emoções pode parecer uma obrigação.
O resultado é que pedir ajuda pode se tornar muito mais difícil.
No Setembro Amarelo, discutir essa questão é especialmente importante porque falar sobre sofrimento emocional também significa questionar a ideia de que silêncio é sinônimo de força.
Quando esconder o sofrimento vira parte da rotina
Um homem pode não dizer que está triste. Pode dizer que está cansado. Pode não admitir que está preocupado. Pode ficar mais irritado. Pode não contar que está se sentindo sozinho. Pode simplesmente parar de sair.
Nem sempre o sofrimento aparece da maneira que as pessoas esperam.
Em alguns casos, a pessoa começa a trabalhar excessivamente, se afastar dos amigos, perder o interesse por atividades que antes gostava ou passar cada vez mais tempo isolada.
Também podem surgir alterações no sono, no apetite, na concentração e na disposição.
O uso excessivo de álcool ou outras substâncias pode aparecer como uma tentativa de lidar com sentimentos difíceis, embora isso tenha diversas causas e não possa ser interpretado automaticamente dessa forma.
O problema é que determinados comportamentos podem ser vistos apenas como “jeito de homem”.
“Ele é fechado mesmo.”
“Está estressado com o trabalho.”
“Homem não gosta de conversar.”
Essas explicações podem fazer com que mudanças importantes sejam ignoradas.
Não existe um comportamento único que indique sofrimento emocional. O que importa é perceber quando alguém começa a agir de maneira muito diferente do habitual e quando essa mudança persiste.
Criar espaço para falar sem transformar tudo em cobrança
Para quem convive com um homem que parece estar enfrentando dificuldades, a abordagem pode fazer diferença.
Perguntas como “o que está acontecendo?” podem funcionar, mas não existe garantia de que ele vá responder imediatamente.
Às vezes, é mais fácil começar por uma observação simples:
“Você parece diferente ultimamente. Está tudo certo?”
Se ele disser que não quer conversar, isso não precisa encerrar a preocupação. É possível deixar claro que a conversa continua disponível e voltar ao assunto depois.
Também ajuda evitar transformar o sofrimento em uma disputa de resistência.
Dizer “você precisa ser forte” pode reforçar exatamente a ideia que talvez esteja impedindo aquela pessoa de falar.
Da mesma forma, frases como “todo homem passa por isso” ou “você precisa reagir” podem transmitir a mensagem de que demonstrar dificuldade não é permitido.
O objetivo não é obrigar ninguém a se abrir. É mostrar que existe um lugar seguro para isso acontecer.
Quando o sofrimento começa a afetar a rotina, os relacionamentos ou o trabalho, buscar ajuda profissional pode ser necessário. Psicólogos, psiquiatras, médicos e outros profissionais de saúde podem ajudar a compreender o que está acontecendo e indicar o tratamento adequado.
Também é preciso levar a sério falas sobre morte, desaparecimento, falta de vontade de viver ou ausência de perspectiva. Não trate esse tipo de comentário como brincadeira, exagero ou tentativa de chamar atenção.
Se houver risco imediato, a pessoa não deve ficar sozinha e é necessário procurar ajuda de emergência.
No Setembro Amarelo, falar sobre homens e sofrimento emocional também é enfrentar uma ideia antiga: a de que suportar tudo calado seria uma prova de força.
Força também pode significar reconhecer um limite. Pode significar dizer “não estou conseguindo”. Pode significar aceitar que outra pessoa sente preocupação e oferecer a ela a oportunidade de ajudar.
Talvez aquele homem que nunca reclama não esteja necessariamente bem.
Talvez ele apenas tenha aprendido que reclamar não era uma opção.
Se você ou alguém que conhece estiver passando por sofrimento emocional e precisar conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o Brasil. O atendimento é sigiloso e anônimo. Em situações de emergência ou risco imediato, procure também um serviço de emergência ou atendimento de saúde.
