Existe um momento em que a preocupação com dinheiro deixa de aparecer apenas no fim do mês. Ela começa no café da manhã, acompanha a pessoa durante o trabalho, volta enquanto ela tenta dormir e reaparece assim que o celular mostra uma nova notificação do banco.
Quem está endividado pode passar horas fazendo contas mentalmente, imaginando como vai pagar a próxima parcela ou tentando decidir qual conta terá de ficar para depois. Quando a renda não é suficiente para cobrir as despesas, a sensação de falta de controle pode se tornar especialmente desgastante.
É aí que um problema financeiro pode começar a afetar também a saúde mental.
Isso não quer dizer que toda pessoa com dívidas desenvolverá ansiedade, depressão ou outro transtorno. Dificuldades econômicas são apenas um dos fatores que podem interferir no bem-estar. Mas uma situação financeira prolongadamente instável pode aumentar o estresse e afetar diferentes áreas da vida.
No Setembro Amarelo, esse assunto merece espaço porque dinheiro, trabalho e endividamento estão entre as preocupações que podem pesar muito quando uma pessoa já está emocionalmente fragilizada.
A cabeça também sente quando as contas não fecham
O primeiro efeito pode ser a preocupação constante. A pessoa sabe que precisa resolver a situação, mas não consegue enxergar uma saída imediata. Em vez de pensar apenas na dívida atual, começa a imaginar tudo o que pode acontecer depois dela.
“E se eu perder o emprego?”
“E se o banco bloquear minha conta?”
“E se surgir uma emergência?”
Esse pensamento contínuo pode dificultar o descanso e a concentração.
O sono é uma das áreas que podem ser afetadas. Algumas pessoas demoram para dormir porque ficam pensando nas contas. Outras acordam durante a madrugada preocupadas com os pagamentos.
A tensão também pode aparecer nas relações.
Casais podem discutir por causa de dinheiro. Pais podem esconder dificuldades dos filhos. A pessoa endividada pode evitar encontros porque não quer gastar ou porque sente vergonha de admitir a situação.
Aos poucos, o problema financeiro deixa de estar apenas na planilha e começa a interferir na vida social.
Existe ainda uma consequência menos óbvia: o estresse pode prejudicar a capacidade de tomar decisões.
Quando alguém está sob pressão constante, pode ficar mais difícil analisar alternativas com calma. Isso pode levar a decisões impulsivas, adiamento de problemas ou novas dívidas feitas apenas para conseguir atravessar aquele momento.
Assim, pode surgir um ciclo difícil:
dívida gera preocupação, preocupação aumenta o estresse, o estresse dificulta decisões e decisões ruins podem aumentar a dívida.
Romper esse ciclo exige olhar para o problema financeiro e para o impacto emocional ao mesmo tempo.
Vergonha, silêncio e a sensação de estar sem saída
Endividamento costuma vir acompanhado de uma emoção que raramente aparece nas planilhas: vergonha.
Algumas pessoas passam a acreditar que deveriam ter administrado melhor o próprio dinheiro. Outras sentem culpa por não conseguirem oferecer determinadas coisas à família.
Esse sentimento pode fazer com que escondam a situação.
O problema é que esconder uma dificuldade não faz com que ela desapareça. Pelo contrário. Sem alguém para conversar, a pessoa pode começar a acreditar que precisa encontrar sozinha uma solução para uma situação que talvez esteja além da sua capacidade naquele momento.
Falar sobre o problema pode ser desconfortável, mas ajuda a tirar a situação do campo da imaginação e colocá-la diante de possibilidades concretas.
Uma medida prática é reunir todas as informações financeiras: renda, despesas essenciais, dívidas, juros e vencimentos. A partir daí, pode ser possível identificar prioridades e procurar negociação ou orientação financeira.
Mas nem tudo se resolve com uma planilha.
Se a preocupação com dinheiro estiver provocando sofrimento intenso, isolamento, alterações persistentes no sono, perda de interesse pelas atividades ou dificuldade de manter a rotina, procurar um profissional de saúde pode ser importante.
Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais podem ajudar quando o impacto emocional se torna significativo.
Também é fundamental prestar atenção ao que a pessoa fala.
Comentários como “não tenho mais saída”, “seria melhor se eu não estivesse aqui” ou “minha família ficaria melhor sem mim” não devem ser tratados como exagero, mesmo quando aparecem durante uma discussão sobre dinheiro.
Se houver risco de a pessoa se machucar ou tirar a própria vida, procure ajuda imediatamente. Não a deixe sozinha e acione um serviço de emergência.
O Setembro Amarelo também serve para lembrar que sofrimento emocional pode estar escondido atrás de problemas que parecem exclusivamente práticos.
Uma dívida pode ser resolvida com negociação. Uma conta pode ser reorganizada. Um orçamento pode ser refeito.
Mas uma pessoa que está sofrendo precisa ser enxergada para além do valor que aparece na tela do banco.
Problemas financeiros não diminuem o valor de ninguém. E pedir ajuda para enfrentá-los, seja financeira ou emocional, não é sinal de fracasso.
Se você ou alguém que conhece estiver passando por sofrimento emocional e precisar conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o Brasil. O atendimento é sigiloso e anônimo. Em situações de emergência ou risco imediato, procure também um serviço de emergência ou atendimento de saúde.
