Tem dias em que o trabalho simplesmente pesa. O prazo aperta, aparecem problemas inesperados, o chefe cobra, o celular continua recebendo mensagens depois do expediente e a sensação é de que nunca dá para terminar tudo.
Uma fase de maior pressão pode acontecer em qualquer profissão. O problema é quando esse estado deixa de ser exceção e passa a ser a forma normal de viver.
A pessoa acorda pensando no trabalho, passa o dia tentando dar conta das tarefas e chega em casa sem energia para conversar ou fazer qualquer outra coisa. No dia seguinte, tudo começa novamente.
Quando a pressão se prolonga, o impacto pode ultrapassar o ambiente profissional.
O sono pode mudar. O humor pode ficar mais instável. Atividades que antes davam prazer começam a parecer obrigação. Até momentos de descanso podem ser acompanhados pela sensação de culpa por não estar produzindo.
No Setembro Amarelo, falar sobre isso também é importante porque o sofrimento emocional pode ficar escondido atrás de uma agenda cheia e de alguém que continua entregando resultados.
Quando o estresse deixa de ser apenas estresse
Nem todo período difícil no trabalho significa que uma pessoa esteja enfrentando um problema de saúde mental.
Um projeto complicado, uma semana de muitas tarefas ou uma situação profissional pontual podem gerar estresse e depois passar.
O sinal de alerta está na persistência e na intensidade.
Quem está sobrecarregado pode começar a apresentar dificuldade para dormir ou descansar mesmo quando tem tempo para isso. Pode acordar já pensando nas tarefas, ter dificuldade para se concentrar ou sentir que qualquer pequeno problema se transforma em algo enorme.
A irritação também pode mudar.
Uma pessoa que normalmente é paciente pode começar a responder de maneira agressiva aos colegas ou familiares. Depois, pode se sentir culpada pelo próprio comportamento.
Outro sinal é quando o trabalho começa a ocupar todo o espaço da vida.
O indivíduo deixa de encontrar amigos, abandona exercícios, não tem disposição para hobbies e passa a usar os fins de semana apenas para se recuperar da semana anterior.
Há ainda quem continue funcionando normalmente, mas à custa de um esforço cada vez maior.
É possível cumprir prazos, participar de reuniões e entregar resultados enquanto existe um sofrimento significativo por trás disso.
Por isso, produtividade não é sinônimo de bem-estar.
O que fazer quando o trabalho começa a consumir a vida
O primeiro passo pode ser reconhecer que existe um problema. Muitas pessoas demoram para admitir que estão sobrecarregadas porque acreditam que precisam simplesmente aguentar até as coisas melhorarem.
Mas algumas situações exigem mudanças concretas.
Organizar prioridades, estabelecer limites de horário, conversar com a liderança sobre uma carga de trabalho inviável e utilizar períodos de descanso de verdade podem ajudar.
Nem tudo, porém, está sob controle do trabalhador. Ambientes com jornadas excessivas, cobranças constantes, assédio ou condições inadequadas podem exigir medidas que vão além de uma simples mudança de rotina individual.
Também é importante observar o que acontece fora do trabalho.
Se a pessoa está constantemente exausta, perdeu o interesse pelas coisas que gostava, está se isolando ou apresenta alterações importantes no sono e no apetite, pode ser hora de procurar ajuda profissional.
Psicólogos, psiquiatras, médicos e outros profissionais de saúde podem avaliar o quadro e orientar o acompanhamento adequado.
Para quem convive com alguém nessa situação, uma conversa também pode ser importante. Em vez de dizer “você precisa descansar”, tente perguntar como a pessoa realmente está lidando com aquela rotina.
E atenção às falas que indicam desesperança.
Se alguém disser que não aguenta mais, que não vê saída, que gostaria de desaparecer ou que seria melhor não estar vivo, não trate como simples reclamação sobre o trabalho.
Leve a fala a sério. Procure ajuda imediatamente e, diante de risco iminente, não deixe a pessoa sozinha e acione um serviço de emergência.
O trabalho ocupa uma parte enorme da vida adulta, mas não deveria ocupar toda a vida.
Descansar não é preguiça. Ter limites não é falta de comprometimento. E admitir que uma rotina está fazendo mal não significa ser um profissional fraco.
No Setembro Amarelo, esse debate também precisa sair do consultório e chegar aos ambientes onde as pessoas passam boa parte do dia.
Às vezes, a frase “estou só cansado” descreve exatamente isso.
Em outras situações, pode ser a maneira mais fácil que alguém encontrou para explicar que não está conseguindo mais dar conta.
Por isso, vale prestar atenção antes que o corpo e a mente sejam obrigados a parar.
Se você ou alguém que conhece estiver passando por sofrimento emocional e precisar conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o Brasil. O atendimento é sigiloso e anônimo. Em situações de emergência ou risco imediato, procure também um serviço de emergência ou atendimento de saúde.
